
O open banking transforma os serviços financeiros tradicionais em algo similar a commodities, de modo que a experiência do cliente e o conhecimento profundo sobre como lidar com os dados (o novo petróleo) gerados em sua jornada de compra se tornam aspectos fundamentais para instituições financeiras.
Anabel Perez, CEO da fintech americana NovoPayment diz algo muito interessante sobre o impacto do open banking: “Para a indústria financeira, open banking é maior do que a internet e o mobile, porque enquanto estas tecnologias mudaram a ponta, elas não foram capazes de alterar de fato o core banking e serviços financeiros com qualquer magnitude”.
No momento em que as instituições financeiras e não financeiras são reguladas para o compartilhamento de informações com empresas terceiras através de API’s, abre-se caminho para modelos de negócios que substituem de forma muito eficiente os serviços tradicionais dos bancos. A partir daí é possível imaginar os caminhos pelos quais o open banking pode nos levar.
A regulamentação de fintechs e a criação dos modelos SEP e SCD, por exemplo, traz uma nova perspectiva tanto para o mercado, quanto para o consumidor. Ela alimenta o surgimento de novas instituições financeiras e dá ao cliente a possibilidade de obter serviços melhores, mais baratos, e cada vez menos vinculados a um espaço físico.
Outra iniciativa de grande importância por parte do Bacen foi a criação do Lift (Laboratório de Inovação Financeira) em conjunto com a Fenasbac e grandes empresas parceiras do setor de tecnologia. O objetivo deste laboratório é a revisão de questões estruturais como, por exemplo, a concentração de capital do mercado financeiro nacional, do Sistema Financeiro Nacional (SFN) e a geração de benefícios sustentáveis para a sociedade brasileira, como crédito com taxas mais baixas via aumento de oferta por players de outros segmentos. A formação de um ecossistema robusto e com regras claras é indispensável para a evolução do open banking no Brasil.
As oportunidades para novos negócios são grandes. Além das pessoas que já possuem conta em um ou mais bancos, há uma grande parcela da população desbancarizada. Portanto, o Brasil caminha junto à vanguarda da inovação e revolução digital com um ambiente regulatório favorável tanto quanto o restante do mundo, ainda que sem o mesmo ímpeto de outros continentes, dadas as diversas variáveis envolvidas, dentre as quais estão também questões econômicas.
No Brasil, aproximadamente um terço da população não possui conta em banco. Segundo a Global Findex, a população desbancarizada no mundo é de cerca de 1,7 bi de adultos, o que representa cerca de 22% do total. Estes números nos dão a ideia do quão valiosa é a oportunidade gerada pelo open banking. E neste contexto, as e-wallets têm papel fundamental para a evolução do mercado e captura desta população sem vínculo com instituições financeiras. Porém, até o presente momento nenhuma das carteiras digitais disponíveis no mercado é universal, e é difícil imaginar que alguma delas possa ser.
Há também a figura do consumidor, que por sua vez deseja ter, assim como já é de praxe no meio físico, um meio de pagamento (carteira digital) única e universal. Neste sentido, o varejista enfrenta um grande impasse e, esperar que haja uma carteira digital comum a todos os consumidores, dada a diversidade de smartphones no mercado, a composição e a competição neste setor, parece pouco provável.
Uma outra questão importante está ligada à infraestrutura do sistema de pagamentos especialmente no meio físico. A utilização de POS que tenha tecnologia contactless não evolui na mesma proporção que o crescimento do uso de smartphones. Além disso, somente os smartphones mais sofisticados possuem esta tecnologia.
Esta questão pode ser solucionada através de outras alternativas como, por exemplo, o uso de QR Codes, bem como a utilização de plataformas que permitam operar pagamentos off-line.
Esta questão de infraestrutura somada aos hábitos de consumo do brasileiro, enfatiza ainda mais a tese de que os consumidores são resistentes à adoção de um sistema com fricções (que neste caso está ligada a não aceitação de sua forma de pagamento no ponto de venda) e o varejista não investirá em tecnologia para sua loja a não ser que haja uma demanda significativa para isso.
Do outro lado do balcão, grande parte do varejo já estabeleceu um vínculo com seus clientes. E é aqui onde o varejista leva vantagem em relação aos bancos.

O papel do varejo no Open Banking
A conexão entre o open banking e o varejo se dá quando isolamos a palavra “banking”. Em sua maioria, as pessoas que mantém uma conta em banco o fazem basicamente para receber seus salários, ter um repositório de suas economias, obter crédito, realizar investimentos etc., e esta é a principal finalidade de uma instituição financeira.
Quando um varejista, que já possui uma carteira de clientes recorrentes e com capilaridade de espaços físicos onde as pessoas possam adquirir produtos e serviços financeiros e não financeiros, e ainda obter vantagens na realização de compra através da forma de pagamento oferecida pelo lojista já conectadas com programas de fidelidade, desconto, cashback entre outros, ele apresenta vantagens competitivas fundamentais que mesmo bancos novos não têm: sua base de clientes e o relacionamento já estabelecido com eles. Dessa maneira, a figura do banco passa a ser secundária, uma vez que outros segmentos da economia podem oferecer serviços similares ou melhores do ponto de vista de UX.
Do ponto de vista de negócios, o varejista que opta pela criação de sua própria fintech com uma conta de pagamento e um “mini-banco”, pode não somente otimizar e monetizar sua relação com o cliente, como também com seus funcionários e fornecedores. Através do pagamento de salários utilizando sua fintech, por exemplo, a empresa corta custos bancários diretamente, além de dar a opção de ofertas exclusivas dentro da rede de lojas e personalizar benefícios de forma integrada através da carteira digital e ter um controle maior de sua folha de pagamento.
Não acredito que os bancos deixarão de existir. Assim como as plataformas de streaming como YouTube e Netflix tomaram o espaço antes ocupado por redes de televisão via conteúdo, penso que o varejo tem a oportunidade de ocupar um espaço importante no mercado financeiro e isso está fortemente atrelado com o momento de transformação digital e às mudanças regulatórias com o intuito de descentralizar e diminuir a concentração do segmento.